I FESTIVAL DE APARTAMENTO "SECHIISLAND" - 21/06/2007

(Postagem originalmente publicada no blog do Grupo Performático AcompanhiA, atualmente extinto)

Uma semana depois da reinauguração oficial do Grupo AcompanhiA (com a performance Endopintura - dis(sec)ação) um evento maior e mais ambicioso foi realizado nas dependências da Sechiisland, na intenção de dar um passo adiante na exploração da linguagem da performance art e, ao mesmo tempo, promover uma confraternização que aproximasse amigos, artistas e interessados de modo geral. Para tanto, o grupo apropriou-se do conceito de Apartment Festival da tradição neoista, no qual a dificuldade de obtenção de "espaços apropriados" para a apresentação de performances, happenings e demais atividades é sumariamente contornada com o uso das residências dos próprios "conspiradores". Até mesmo como palco de eventos internacionais! (maiores detalhes no livro "Assalto à Cultura - Utopia, subversão, guerrilha na (anti)arte do século XX", de Stewart Home, Editora Conrad).
Festas e reuniões na Sechiisland nunca foram incomuns. A casa já era relativamente reconhecida como um espaço alternativo e não foram poucas as ocasiões em que freqüêntadores chegaram a testemunhar (e realizar) performances durante animadas reuniões regadas a vinho. A idéia era aproveitar essa familiaridade para atrair um público razoável e surpreende-lo com dois trabalhos simultâneos muito mais complexos do que os habituais, literalmente tomando de assalto as pessoas presentes e explorando outros níveis de envolvimento ritualístico entre performers e testemunhas.
Os trabalhos realizados foram: Comunhão, conduzido por Rodrigo Emanoel Fernandes, e Fôlego, conduzido por José Roberto Sechi. Embora diferentes, foram planejados para acontecer em conjunto, simultaneamente e com pontos de intercecção, utilizando de forma mais efetiva as possibilidades oferecidas pela planta da Sechiisland e elementos de sonoplastia e iluminação que o tempo disponível para preparação prévia permitia utilizar.
(Vale mencionar que o festival era aberto a intervenções do público presente, mantendo a tradição das célebres reuniões da Sechiisland. A noite também contou com performances de Thiago Buoro e Sandra Bretas)

O vídeo a seguir foi filmado por João Paulo Miranda Maria. Infelizmente as imagens ficaram um tanto escuras. A iluminação planejada para as performances não permitia uma filmagem adequada, entretanto foi uma opção do grupo deixar a qualidade do registro em segundo plano para não sacrificar o impacto imediato do evento. De qualquer forma, a somatória do vídeo, das fotos e da descrição da seqüência de ações formam um registro bastante adequado em seu conjunto.



Descrição da seqüência de ações:
- A festa teve início por volta das 20:30, sem nenhuma indicação de onde e quando as performances aconteceriam. Enquanto as pessoas iam chegando - e as garrafas de vinho iam sendo abertas - preparativos eram realizados secretamente (graças a inestimável contrarregragem de Ludmila de Almeida Castanheira e José Renato Fernandes);
- por volta de 22:30, sem aviso, todas as luzes da casa se apagam e a angustiante música Deliver me from my enemies, de Diamanda Galas, começa a ecoar de algum ponto do térreo, marcando o início de Comunhão. Os presentes descem as escadas atraídos pelo som;
- uma porta, que até então passara desapercebida, é violentamente aberta. Uma persona (Rodrigo Emanoel Fernandes), sem camisa e usando uma máscara feita de carne crua, silenciosamente convida as pessoas a entrarem;

- dentro da sala uma instalação fôra previamente montada: paredes decoradas com chapas radiográficas e frascos de soro contendo tinta; varais cruzando o espaço, com ossos de vários tipos pendurados com pregadores; uma estante cheia de ferramentas e instrumentos de corte e uma mesa de madeira forrada com pequenos objetos e uma morsa. Tudo isso iluminado apenas por velas;

- a persona ocupa-se com diversas atividades aleatórias: constrói objetos com madeira, utilizando martelos, serra elétrica, ganchos e outros instrumentos. Demostra impaciência e certa agressividade. Presenteia alguns dos presentes com fragmentos de ossos;

- a certa altura, apanha uma vela e abre caminho em meio as pessoas, subindo as escadas em direção ao andar superior. O público o segue;

- a persona acende um fogareiro, quebrando a escuridão com labaredas enormes. Numa atitude ritualística, arranca a máscara de carne e começa a frita-la numa frigideira sobre o fogareiro;

- nesse momento uma luz acende num nicho num dos cantos da sala, revelando o segundo performer (José Roberto Sechi) emparedado atrás de uma tela de plástico. O performer está soterrado por balões coloridos que ele enche repetidamente. Nesse momento o público se dá conta de que a performance Fôlego já estava em andamento;

- enquanto isso, a persona destrincha a carne, come e oferece pedaços ao público na ponta de um garfo, dirigindo-se de pessoa em pessoa. De todos os presentes, apenas dois recusaram comer;

- o ritual prossegue até restar pouco mais que alguns restos da carne. Nesse momento o segundo performer começa a estourar os balões com a brasa do cigarro. Depois abre um pequeno orifício na tela de plástico e, com um estilete, abre uma passagem que lhe permite emergir do nicho.

- os dois performers compartilham os últimos pedaços da carne. Mais uma garrafa de vinho é aberta, as luzes se acendem... a festa prossegue.

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